Reportagem revela instrumentalização da Polícia Civil contra opositores em Pernambuco

Uma longa reportagem exibida neste domingo (25) pela Record TV lançou luz sobre um conjunto de denúncias de extrema gravidade envolvendo a atuação da Polícia Civil de Pernambuco durante a gestão da governadora Raquel Lyra.

O material reúne documentos internos, mensagens trocadas entre policiais e depoimentos, alguns públicos, outros sob sigilo, que apontam para um cenário inquietante: o possível uso político da estrutura policial, a perseguição a servidores que se recusaram a cumprir ordens consideradas ilegais e práticas típicas de arapongagem institucional.

O quadro descrito remete mais à ficção política retratada no filme O Agente Secreto do que a uma democracia constitucional. Assim como na obra cinematográfica, em que estruturas do Estado são instrumentalizadas para vigiar, intimidar e neutralizar adversários sob o pretexto de legalidade, as denúncias indicam a existência de uma espécie de “polícia paralela” operando à margem dos controles institucionais.

Segundo a reportagem, esse aparato teria sido utilizado para monitorar e investigar adversários políticos do governo estadual, em um contexto diretamente relacionado à disputa eleitoral em Pernambuco.

Entre os principais alvos das ações denunciadas estariam aliados do prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, que lidera com ampla vantagem as pesquisas de intenção de voto no estado. O fato de o gestor municipal surgir, ainda que de forma indireta, em ao menos duas das denúncias reforça a suspeita de que determinadas investigações e operações não teriam sido guiadas por critérios técnicos ou jurídicos, mas por conveniências políticas, especialmente em um ambiente pré-eleitoral, onde o uso da máquina pública pode distorcer o jogo democrático.

Um dos episódios mais sensíveis revelados envolve a divulgação de ofícios internos da Polícia Civil. Em um deles, um delegado determina a continuidade de uma investigação mesmo após o arquivamento formal do caso por outro delegado responsável, que havia concluído pela inexistência de provas ou indícios de crime.

O caso citado diz respeito a apurações envolvendo creches do Recife. Conforme a reportagem, o próprio texto do ofício faz menção à relevância eleitoral da investigação, o que levanta suspeitas claras de desvio de finalidade e de violação dos princípios da legalidade, da impessoalidade e da imparcialidade que devem reger a atuação policial.

A suposta atuação direcionada contra o prefeito João Campos também é sustentada pela divulgação de prints de conversas em um grupo de WhatsApp formado por policiais civis, identificado como “Nova Missão”. As mensagens, segundo a imprensa, indicariam uma articulação interna para o direcionamento de ações policiais com viés político, reforçando a percepção de que decisões operacionais estariam sendo tomadas fora dos canais institucionais formais.

O conjunto das denúncias extrapola eventuais irregularidades administrativas e toca no coração do regime democrático. Quando forças policiais passam a ser percebidas como instrumentos de vigilância política,?e não como garantidoras da lei e da ordem, instala-se um ambiente de desconfiança institucional que enfraquece o Estado de Direito.

Assim como em O Agente Secreto, o perigo não está apenas nos atos isolados, mas na normalização de práticas que corroem, silenciosamente, os limites entre governo, Estado e poder coercitivo.

As revelações já provocam forte repercussão e tendem a aprofundar o debate público sobre a condução da segurança pública em Pernambuco, a independência das instituições policiais e os riscos de sua captura por interesses políticos. Em jogo não está apenas uma disputa eleitoral, mas a preservação de garantias democráticas fundamentais.

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Marcelo Aprígio

Jornalista pela UFPE. Foi repórter de política e economia no Jornal do Commercio e editor de conteúdo do Portal NE10/UOL. DRT 7839/PE.