Editorial | Quando um vereador transforma “virar mulher” em castigo, toda a sociedade perde

Reprodução/Recife Ordinário

Há frases que ultrapassam o calor de um debate e revelam muito mais sobre quem as pronuncia do que sobre quem pretende-se atacar.

Foi o que aconteceu nesta quarta-feira (22) durante o debate promovido pelo Recife Ordinário entre o vereador Eduardo Moura (Novo), candidato a deputado federal, e Jones Manoel (PSOL), pré-candidato ao mesmo cargo.

O contexto é o seguinte. Jones afirmou defender toda forma de resistência do povo palestino. A declaração, no mínimo, foi ambígua e abriu margem para uma interpretação de que ele estaria relativizando crimes cometidos pelo Hamas, inclusive estupros. O que é terrível. E, claro, é perfeitamente legítimo criticar essa fala, confrontá-la e até cobrar explicações. O debate público existe para isso.

Mas Eduardo Moura decidiu ir além. Depois de acusar Jones de defender estupradores, afirmou que ele deveria estar preso e, no presídio, “virando mulher”. A terrível declaração aconteceu por volta das 3 horas e 03 minutos do programa.

É justamente aí que o problema deixa de ser Jones Manoel e passa a ser Eduardo Moura, um vereador de mandato, que jurou defender a constituição do Brasil, de Pernambuco e a Lei Orgânica do Recife.

O que significa “virar mulher” dentro de uma prisão? Todos sabem exatamente o que essa expressão quer dizer. Não se trata de uma mudança de identidade de gênero. Não se trata de uma metáfora inocente. Trata-se da velha cultura desgraçada que associa a mulher ao papel da vítima de violência sexual. Na prática, a frase significa desejar que alguém seja estuprado.

Mais do que isso: significa usar a condição feminina como sinônimo de submissão, humilhação e abuso. A lógica implícita é assustadora.

Se o pior destino para um estuprador é “virar mulher”, então ser mulher é ocupar o lugar daquele que sofre violência.

Se “virar mulher” significa ser estuprado, então a feminilidade é reduzida ao papel de vítima.

É difícil imaginar uma declaração mais misógina do que essa.

Durante décadas, mulheres lutaram para deixar de ser tratadas como sexo frágil, objeto sexual ou símbolo de submissão. E então um representante eleito recorre justamente ao estereótipo mais cruel possível para ofender um adversário político.

Não é apenas uma piada ruim. É uma frase construída sobre a naturalização do estupro como instrumento de punição.

É curioso observar que o discurso pretende condenar um suposto defensor de estupradores utilizando a defesa do estupro como castigo.

Esse raciocínio destrói qualquer compromisso sério com os direitos humanos. Isso é preocupante.

Expressões como “virar mulher”, usadas como insulto, reforçam uma cultura machista que ensina desde cedo que o pior que pode acontecer a um homem é ser colocado na posição socialmente atribuída às mulheres.

A ofensa só funciona porque parte da premissa de que ser mulher é inferior. E isso deveria constranger qualquer político que pretenda representar uma sociedade democrática.

Eduardo Moura tinha todo o direito de atacar a fala de Jones Manoel. Poderia exigir esclarecimentos, cobrar coerência ou denunciar qualquer relativização de crimes do Hamas. Até denunciá-lo às autoridades por um possível crime de apologia ao estupro.

Mas preferiu recorrer ao velho imaginário machista que transforma o estupro em piada, a mulher em sinônimo de humilhação e a violência sexual em instrumento retórico.

No final quem perdeu o debate foi o nível da política. Foi a sociedade inteira.

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