Oposição protocola pedido de impeachment contra Priscila Krause na Alepe

Os deputados estaduais Sileno Guedes, Rodrigo Farias e Romero Albuquerque protocolaram, nesta quarta-feira (19), na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), um pedido de impeachment contra a vice-governadora Priscila Krause (PSD).

A representação tem como base questionamentos sobre a destinação de recursos públicos para a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Garanhuns, que tem entre seus sócios o empresário Jorge Branco, marido da vice-governadora.

Segundo os parlamentares, o pedido reúne fatos que, na avaliação deles, justificam a abertura de uma investigação formal pela Alepe. Entre os pontos citados estão repasses estaduais para a unidade, atos praticados durante períodos em que Priscila assumiu interinamente o comando do Governo de Pernambuco e as conclusões de uma recente auditoria do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS).

Deputados citam R$ 200 milhões em orçamento

Na representação, os três deputados afirmam que, durante períodos em que Priscila Krause esteve à frente do Executivo estadual, foram assinados cerca de R$ 200 milhões em orçamento que, segundo eles, também alcançavam a unidade hospitalar administrada pelo marido da vice-governadora.

O caso já vinha sendo explorado pela oposição na Alepe. Em fevereiro, deputados questionaram repasses para o hospital e levantaram dúvidas sobre a relação entre os períodos de interinidade de Priscila e as transferências de recursos.

O Governo de Pernambuco, por sua vez, contestou anteriormente valores divulgados pela oposição e afirmou que a instituição recebeu aproximadamente R$ 67 milhões do Estado entre 2023 e 2025. Segundo a gestão, durante os períodos em que Priscila esteve como governadora em exercício, os repasses totalizaram R$ 2,44 milhões.

Auditoria do Ministério da Saúde aponta irregularidades

A iniciativa ocorre poucos dias depois da divulgação de uma auditoria do DenaSUS sobre a Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. O relatório apontou R$ 905,2 mil em prejuízos relacionados a recursos federais e recomendou a devolução dos valores ao Fundo Nacional de Saúde.

A fiscalização analisou recursos repassados entre janeiro de 2023 e julho de 2025 e identificou problemas na comprovação de procedimentos, incluindo atendimentos de oncologia e hemodiálise. O relatório apontou, entre outros pontos, 90 sessões de hemodiálise sem documentação suficiente para comprovar a realização nos termos registrados.

Os auditores também apontaram fragilidades nos mecanismos de controle e acompanhamento dos contratos mantidos pela Secretaria Estadual de Saúde com a unidade, além de mencionarem potencial conflito de interesses em razão do vínculo conjugal entre o sócio do hospital e a vice-governadora.

Hospital contesta conclusões da auditoria

A Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro contestou as conclusões do DenaSUS. Em manifestação divulgada após o relatório, a instituição afirmou que os procedimentos questionados foram efetivamente realizados e que parte das divergências estaria relacionada à documentação e à codificação administrativa.

Sobre a hemodiálise, o hospital afirmou que a ausência de determinados registros não significa que os atendimentos não tenham ocorrido. A instituição também informou que pretende apresentar documentos e esclarecimentos pelas vias administrativas e judiciais cabíveis.

A Secretaria Estadual de Saúde também informou que pretende recorrer à Justiça para pedir a revisão das conclusões da auditoria.

Deputados querem investigação na Alepe

Na justificativa do pedido de impeachment, Sileno Guedes, Rodrigo Farias e Romero Albuquerque também questionam a estrutura administrativa da Secretaria Estadual de Saúde. Segundo eles, Priscila Krause nomeou responsáveis pelas áreas jurídica, de licitação e financeira da pasta que participavam da cadeia administrativa relacionada aos pagamentos destinados ao hospital.

Para os parlamentares, o conjunto dos fatos exige que a Assembleia Legislativa apure se houve irregularidades na gestão dos recursos públicos e eventual responsabilidade da vice-governadora.

“Esse conjunto de irregularidades, que fez o Ministério da Saúde exigir que o marido da vice-governadora faça a devolução de recursos para o SUS, nos levou a exigir que a Assembleia Legislativa se mobilize formalmente para apreciar o caso”, afirmaram os deputados.

O pedido será agora submetido à tramitação na Alepe, que deverá analisar a representação e definir os próximos passos.

Governo rebate e nega irregularidades

O Governo de Pernambuco contestou as acusações e classificou o pedido de impeachment como uma iniciativa de caráter político-eleitoral.

Em nota, a gestão afirmou que Priscila Krause não integra o quadro societário da Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que presta serviços ao Estado há 55 anos.

O governo também destacou que o relatório do DenaSUS apontou inconsistências documentais equivalentes a 1,4% do montante analisado e que, das cerca de 150 mil sessões de hemodiálise verificadas, apenas 90 tiveram a documentação questionada, o equivalente a 0,06%.

A gestão citou ainda decisão do Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE), de 2024, segundo a qual os fatos analisados não indicariam impedimento para as contratações, e afirmou que seguirá adotando as providências previstas na legislação e prestando os esclarecimentos necessários.

Leia a íntegra da nota:

O Governo de Pernambuco afirma que as acusações não correspondem aos fatos e que o pedido protocolado por três deputados de oposição na Assembleia Legislativa tem caráter político-eleitoral. O Governo ainda esclarece que a vice-governadora Priscila Krause não integra o quadro societário da Casa de Saúde e Maternidade Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, que presta serviços complementares ao estado há 55 anos, ao longo de 16 governadores.

A Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) recebeu o relatório final do Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DenaSUS) relacionado Casa de Saúde, em Garanhuns, e segue com os encaminhamentos dentro da norma jurídica da mesma forma que realiza para qualquer outro prestador da secretaria.
O relatório apontou inconsistências documentais correspondentes a 1,4% do montante analisado. Sendo certo que, das cerca de 150 mil sessões de hemodiálise analisadas uma a uma, o parecer contesta a documentação de apenas 90, o equivalente a 0,06% do total.

O Tribunal de Contas do Estado (TCE-PE) já analisou o caso, ainda em 2024, afastando a hipótese das irregularidades alegadas: “os fatos não indicam a concretização das referidas hipóteses de vedação à contratação”.

Segundo o mesmo parecer, as contratações questionadas pela Alepe “não se tratam de novidades, já tendo sido realizadas, por mais de uma vez, entre o Estado e a Casa de Saúde, inclusive durante o mandato de outra gestão, nos quais foram envolvidas cifras similares às contestadas”.
O Governo de Pernambuco reafirma seu compromisso com a transparência e seguirá prestando todos os esclarecimentos necessários.

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Marcelo Aprígio

Jornalista pela UFPE. Foi repórter de política e economia no Jornal do Commercio e editor de conteúdo do Portal NE10/UOL. DRT 7839/PE.