Votos após 17h não seriam suficientes para mudar resultado da eleição; veja o que dizem os números

Levantamento identificou 34,4 mil votos registrados após o horário previsto para o encerramento da votação

Um levantamento independente dos registros das urnas eletrônicas ao qual o Blog Plural teve acesso nesta segunda-feira (26) permite avaliar se os votos registrados após as 17h poderiam alterar o resultado do segundo turno das eleições presidenciais de 2026. Os números mostram que a quantidade identificada é muito inferior à diferença de votos entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo o resultado oficial anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, enquanto Flávio recebeu 59.826.041. A diferença foi de 4.430.191 votos.

O levantamento analisado, publicado no site Kakaroto.dev, identificou 34.424 votos registrados após as 17h, considerando os registros disponíveis das urnas no Brasil, sem incluir o exterior. O número corresponde a aproximadamente 0,03% dos 127,7 milhões de votos usados como base pelo levantamento (veja levantamento abaixo).

A comparação com o resultado oficial permite construir cenários hipotéticos para avaliar o impacto desses votos.

E se todos os votos após as 17h fossem para Flávio?

No cenário mais favorável a Flávio Bolsonaro, seria possível imaginar que os 34.424 votos identificados fossem destinados exclusivamente ao candidato do PL, sem que Lula recebesse nenhum deles.

Mesmo nessa hipótese, a diferença de 4,43 milhões de votos não seria revertida. Se os 34.424 votos fossem acrescentados à votação de Flávio, sem qualquer alteração na votação de Lula, a vantagem do petista cairia para 4.395.767 votos.

Há outra possibilidade: imaginar que todos os votos registrados após as 17h fossem retirados do resultado oficial por uma eventual anulação. Mesmo supondo, de forma extrema, que todos esses votos tivessem sido destinados a Lula, a diferença entre os candidatos ainda seria de 4.395.767 votos.

Em uma terceira hipótese, ainda mais favorável a Flávio, seria possível retirar os 34.424 votos da votação de Lula e transferi-los integralmente para o candidato do PL. Nesse caso, a diferença cairia para 4.361.343 votos, ainda distante de uma reversão do resultado.

Esses exercícios são simulações matemáticas, não afirmações sobre a distribuição real dos votos registrados após as 17h. O levantamento não informa que todos esses votos foram destinados a Lula, tampouco que foram recebidos por Flávio.

O que significa votar sem biometria?

Outro dado do levantamento chama atenção: entre os 34.424 votos registrados após as 17h, 5.478 foram identificados como votos de eleitores sem biometria, o equivalente a 15,9%.

Antes das 17h, o percentual informado era de 12,4%, correspondente a 15.852.949 votos, conforme os dados apresentados no levantamento.

A ausência de biometria, por si só, não significa irregularidade eleitoral. A identificação biométrica é um dos mecanismos utilizados pela Justiça Eleitoral, mas a falta de registro biométrico não torna automaticamente inválido um voto. É necessário distinguir a ausência de biometria de eventuais problemas comprovados na identificação do eleitor ou no procedimento de votação.

O levantamento também identificou 5.249 seções eleitorais com pelo menos um voto sem biometria registrado após as 17h. Esse número representa seções sinalizadas para análise, e não 5.249 votos necessariamente irregulares.

Além disso, o próprio levantamento informa que analisou 497.895 das 497.897 seções eleitorais no Brasil. Duas seções estavam sem registro disponível na plataforma consultada.

E se o levantamento considerasse 100% das urnas?

A cobertura informada é de aproximadamente 99,9996% das seções consideradas pelo levantamento. A ausência de registros de apenas duas seções não permite, por si só, calcular exatamente quantos votos foram registrados depois das 17h nesses locais.

Entretanto, a diferença entre Lula e Flávio foi de mais de 4,4 milhões de votos. Para que os registros posteriores às 17h alterassem o resultado, seria necessário demonstrar um volume de votos afetados muito superior aos 34.424 identificados, além de comprovar como esses votos impactariam a votação de cada candidato.

Não é metodologicamente correto multiplicar o total de votos após as 17h por uma proporção estimada para preencher as duas seções ausentes sem conhecer seus dados. Também não é possível presumir que todos os votos não contabilizados tenham sido destinados a um único candidato.

Portanto, a cobertura incompleta deve ser registrada como uma limitação do levantamento, mas não constitui evidência de que milhões de votos estejam ausentes dos dados.

Lula e Flávio também pediram mais tempo para votar

A discussão sobre o horário de encerramento também precisa considerar que as duas campanhas solicitaram a ampliação do período de votação no segundo turno.

A campanha de Lula defendeu a extensão nacional até as 19h, alegando dificuldades no transporte público em diferentes cidades. Flávio Bolsonaro também solicitou a prorrogação, citando problemas climáticos, alagamentos e bloqueios de vias em localidades de diferentes estados.

O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a extensão do horário. Posteriormente, a orientação foi ajustada para permitir a continuidade da votação nas seções que ainda estavam abertas, enquanto os votos das seções já encerradas seriam totalizados.

O episódio provocou dificuldades operacionais na transmissão e no processamento dos boletins de urna, conforme relatou o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques. A corte informou que foi necessário adaptar os procedimentos de totalização diante da decisão tomada próximo ao horário original de encerramento.

O fato de ambas as campanhas terem solicitado mais tempo de votação não elimina a necessidade de analisar eventuais irregularidades comprovadas. Da mesma forma, a existência de registros posteriores às 17h não demonstra, por si só, fraude ou alteração indevida do resultado.

Lula seria eleito presidente mesmo sem votos após 17h

Os dados apresentados não sustentam a hipótese de que os 34.424 votos registrados após as 17h, por si sós, seriam suficientes para alterar o resultado da eleição presidencial de 2026.

Mesmo nos cenários matemáticos mais favoráveis a Flávio Bolsonaro, a diferença final continuaria superior a 4,3 milhões de votos. A inclusão das duas seções sem registro exige cautela metodológica, mas não há, no levantamento apresentado, evidência de que a parcela ausente pudesse se aproximar do volume necessário para reverter o resultado.

Para contestar oficialmente a eleição, seria necessário apresentar evidências verificáveis de irregularidades e demonstrar seu impacto eleitoral. A análise de horários, biometria e registros das urnas pode contribuir para a fiscalização, mas não substitui a comprovação de problemas concretos.

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Marcelo Aprígio

Jornalista pela UFPE. Foi repórter de política e economia no Jornal do Commercio e editor de conteúdo do Portal NE10/UOL. DRT 7839/PE.